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Porque o Chile matou o tigre Tony, do Sucrilhos

20 de fevereiro de 2018

O mundo caminha na direção de uma grande mudança de hábitos alimentares. Cada vez mais, comidas como fast food e processados são vistas como “novos cigarros”: depois de uma era de sucesso de vendas e glamour, as descobertas científicas sobre os seus efeitos na saúde causam uma gradual redução no número de consumidores.  Em alguns lugares, as iniciativas no sentido de abolir os “vilões” da dieta são mais enérgicas. É o caso do Chile, onde os índices alarmantes de obesidade e sobrepeso - especialmente entre as crianças - fizeram o governo enfrentar as grandes corporações do ramo alimentício para promover uma alimentação mais saudável para sua população. Confira essa história interessante e esclarecedora na matéria da Revista Exame (Editora Abril), na íntegra abaixo:

“Por que o Chile matou o tigre Tony, do Sucrilhos
O Chile aprovou nos últimos anos uma das mais restritivas leis de combate ao açúcar do planeta; agora, um novo presidente pode promover mudanças

                                                            

Santiago, Chile – Eles mataram Tony, o tigre. Acabaram com a chita Chester do Cheetos. Baniram a surpresa do Kinder Ovo, o chocolate que vinha com um brinquedo escondido. O governo do Chile, que está enfrentando altíssimas taxas de obesidade, vem travando uma guerra contra comidas pouco saudáveis com uma enxurrada de restrições de publicidade, redesenhos obrigatórios de embalagens e regras de rotulagem destinadas a transformar os hábitos alimentares de 18 milhões de pessoas.
Especialistas em nutrição dizem que as medidas são a tentativa mais ambiciosa do mundo para reformar a cultura alimentar do país e podem servir de modelo para mudar o rumo de uma epidemia de obesidade global que, segundo pesquisadores, contribui para a morte prematura de quatro milhões de pessoas por ano.

Desde que a da alimentação foi promulgada há dois anos, ela forçou gigantes multinacionais, como a Kellogg, a remover personagens icônicos das caixas de cereal açucarados e baniu as vendas de doces como o Kinder Ovo, que usam bugigangas para atrair consumidores jovens. A lei também proíbe a venda de comidas pouco saudáveis, como sorvetes, chocolates e batatas fritas em escolas chilenas e impede sua publicidade durante programas de televisão ou em sites voltados para os jovens. Ainda está sonhando com uma Coca-Cola? No Chile, bebidas açucaradas têm imposto de 18 por cento, um dos maiores do mundo para esse tipo de produto.

O elemento central da iniciativa é um novo sistema de rotulagem que exige que as empresas que produzem alimentos empacotados exibam de maneira proeminente logotipos negros de aviso, com um sinal de “pare”, em itens com alto teor de açúcar, sal, calorias ou gordura saturada.

A indústria de alimentos acha que as regras do governo são excessivas. Felipe Lira, diretor da Chilealimentos, um associação da indústria, diz que os novos rótulos de nutrição são confusos e invasivos e que as restrições de publicidade são baseadas em uma correlação cientificamente falha entre a promoção de alimentos poucos saudáveis e o ganho de peso. “Acreditamos que a melhor maneira de abordar o problema da obesidade é por meio da educação do consumidor e da mudança dos hábitos das pessoas”, disse ele em uma declaração por e-mail.

A PepsiCo, fabricante do Cheetos, e a Kellogg, que produz os flocos de milho Frosted Flakes, levaram o caso aos tribunais, argumentando que a regulamentação infringe sua propriedade intelectual. O caso ainda não foi julgado. María José Echeverria, porta-voz da PepsiCo, diz que a empresa segue a lei e não tem qualquer interesse em derrubá-la, mas vem apenas tentando proteger sua capacidade de usar uma marca comercial registrada localmente. A Kellogg se recusou a comentar.

Três quartos dos adultos têm sobrepeso ou estão obesos, segundo o ministro da Saúde do país. As autoridades estão particularmente alarmadas com as taxas de obesidade infantil, que figuram entre as maiores do mundo, com mais de metade das crianças de seis anos acima do peso ou obesas. Em 2016, os custos médicos da obesidade atingiram US$800 milhões, ou 2,4 por cento de todos os gastos com saúde, um número que, segundo analistas, pode chegar a quase quatro por cento em 2030. Essas estatísticas preocupantes ajudaram a formar uma coalisão de políticos, cientistas e defensores de saúde pública que superaram a oposição ferrenha das empresas de alimentos e seus aliados no governo.

“Foi uma batalha difícil”, afirma o senador Guido Girardi, vice-presidente do senado do Chile e médico que primeiro popôs as regulamentações em 2007. “As pessoas têm o direito de saber o que as companhias de alimentos estão colocando nesse lixo, e com essa lei, acho que o Chile deu uma grande contribuição à humanidade.”

No Chile, os interesses corporativos adiaram a aprovação da lei por quase uma década. 
Mas a indústria raramente enfrenta oponentes como Girardi. Cirurgião com uma queda pelo teatro, ele é uma figura chave na coalisão do governo da presidente Michelle Bachelet. Durante a longa luta pela lei da alimentação, Girardi, de 56 anos, atacou publicamente as grandes empresas de alimentos como “pedófilas do século 21” e, antes de Bachelet tomar posse, passou semanas protestando em frente ao palácio presidencial com placas que acusavam seu predecessor, Sebastián Piñera, de destruir a saúde da nação ao vetar uma versão anterior da lei.

“O açúcar mata mais gente do que o terrorismo e os acidentes de carro combinados. É o veneno do nosso tempo”, afirmou ele em uma entrevista enquanto balançava uma caixa de cereais Trix para conseguir um efeito. Outros fatores também tornaram a legislação possível, como uma legislatura determinada a abordar os custos econômicos cada vez maiores da obesidade e o apoio de Bachelet, socialista que também é pediatra.

No final, a pressão da indústria conseguiu aliviar algumas medidas da lei original, incluindo o afrouxamento das restrições publicitárias e a anulação de uma proibição de venda de junk food perto das escolas. As taxas de obesidade do Chile ainda precisam cair, e, segundo os especialistas, mudar a maneira que as pessoas comem pode demorar anos. Ao focar na embalagem e na publicidade de alimentos pouco saudáveis que atraem as crianças, no entanto, o governo do Chile espera reprogramar a próxima geração de consumidores. “É preciso mudar todo o sistema de alimentação e não dá para fazer isso da noite para o dia”, explica a doutora Cecilia Castillo Lancellotti, que foi chefe de nutrição do Ministério da Saúde e uma das primeiras a propor a lei.

As novas regulamentações, no entanto, já provocaram uma recompensa inesperada: as empresas de alimentos vêm voluntariamente modificando seus produtos para evitar os temidos logotipos negros. O trabalho de implementar as leis cabe a um grupo de consultores técnicos que se reúne todas as semanas no Ministério da Saúde e fornece orientação sobre se uma empresa de lanches deve remover o logotipo de um gatinho dançarino de um pacote de biscoitos ou se a voz de um adulto deve substituir a vozinha infantil de um salgadinho de milho em uma propaganda do rádio.

O doutor Jaime Burrows Oyarzún, vice-ministro de Saúde Pública, acredita que o governo vai vencer nos tribunais. Como principal árbitro das novas leis, ele com frequência é o foco da ira da indústria. Depois de banir o Kinder Ovo, um executivo da empresa vindo da Itália e o embaixador italiano no Chile o acusaram de travar “terrorismo alimentar” durante uma visita a seu escritório, lembrou ele em uma entrevista.

Alguns defensores da nutrição saudável se perguntam quanto tempo a lei vai permanecer da maneira como está. Piñera, o ex-presidente que foi recentemente eleito novamente para o cargo e vai suceder Bachelet em março, é um homem de negócios conservador que vetou a lei dos alimentos em 2011. Em vez disso, sua administração apoiou uma iniciativa, financiada pelas companhias multinacionais de produtos alimentícios, que enfatiza receitas saudáveis, exercícios e moderação quando se trata de alimentos pouco saudáveis. Uma porta-voz de Piñera afirmou que ele gostaria de examinar melhor a lei e explorar maneiras de “melhorá-la” depois que assumir o cargo.”

Revista Exame,
20 de fevereiro de 2018
 


Categorias: MÍDIA, SAÚDE

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